The Box Of Lovers

Thursday, October 12, 2006

Palavras improvisadas

Eu não tenho a sorte do infeliz
E não quero mais que tenha dó de mim.


Doris Day - Gram


Sou triste. Isso é fato. Penso nisso todos os dias. Com as mãos nos bolsos caminhei esta tarde inteira pelo parque, vi as crianças ao redor, vi a fraca luz do sol que tentava despontar entre as árvores, vi o pequeno sorriso daquele senhor de cabelos brancos, talvez um deus em plena meditação, talvez apenas uma pessoa comum aguardando a abertura dos portais do destino.

Tenho um sensibilidade que não consigo controlar, é tão intensa e dolorosa, é uma flor que nasce dentro de um corte. Me dizem que sou amargo, mas não consigo ter raiva de alguém que me faça o maior dos males, ou odiar o que quer que seja. Não sou amargo em hipótese alguma, meus poucos amigos bem o sabem, até mesmo me dizem para não ter tanta atenção assim com todos, pois isso me traria mais desolação e tristeza. Mas não sei ser menos, sou assim.

Não cultivo jardins de angústias, mesmo se um anjo me diz palavras cortantes sobre um eu que nunca fui, um eu que nunca me será, apenas declino em mágoa passageira, sem um traço de ressentimento, pois sei que tudo é tão rápido e às vezes sem qualquer importância, a alegria de hoje, pode ser o abismo de amanhã, a questão é como você vê a alegria, e o abismo, ou melhor: a questão é como você os sente.

A vida é como um castelo de cartas, pode-se começar muito bem, colocando-as em posições sólidas e estáveis, porém qualquer sopro na brisa pode derrubá-lo facilmente. Ou pode começar sem conseguir equilibrar uma carta que seja, porém você pensa sobre maneiras de manter este castelo em pé, tão firme quanto possível. Eis que aparece o segredo, não basta ter somente a logística e sim o sentimento, junto à ela. Eis a dualidade que chamam de prazer e dor, nada mais são que a mesma coisa, vistas de outros modos.



Ouvindo:

Polly Jean Harvey - Fountain / The Letter (versões acústicas fodassas)

Sunday, October 08, 2006

Enfim

O poema que segue foi escrito esses dias, no fim do mês.
Ainda não está definido, mas bem encaminhado...

Introdução


Assim
se fez o fim,
da luz dos primeiros astros
da pequena música casual
que retornava
no pequeno quarto nostálgico.
das primeiras horas,
de onde surgiam
risos distraídos, dourados
ou a descida dos umbrais
da fascinante utopia.
no declinar
no rubor de uma casta aurora.

Assim se fez a dor,
dos primeiros mundos
desenhados.
das primeiras frases,
entrecortadas
por um pensamento.
um sopro talvez
de inspiração em meus olhos
me fez vagar.
vigiei as vozes do meu tempo
porém meus ouvidos
foram selados,
pelos sublimes anjos noturnos
do esquecimento.

Em sendas o destino
curvou espinhos,
floresceu demais nesta casa
de espelhos e ilusões.
nestas salas jamais adentrarão
os castos amantes,
nestes vastos jardins jamais,
os seus pés suaves
vão deslizar passos em vão.
destes negros portões jamais.

Em poemas,
as contas do rosário
da vida,
não pesará mais que as mãos
de uma criança desperta,
após longos pesadelos
exasperantes.
menos que lágrimas
de um abençoado
em anunciação de uma centena
de milagres.
ou o apaixonado,
que feriu os pulsos por saudades.
ou a paixão que retorna o transe
dos eternos solitários.

Assim se fez a angústia,
das pequenas coisas simples,
do pequeno erro, do pequeno gesto.
assim se fez a solidão.
das fotos guardadas na estante,
dos momentos inesquecíveis
que em minhas pupilas riscaram
seus traços.
dos copos de café sobre a mesa
de vidro.
entre os guardanapos escritos.


Assim se fez o verbo em mim.




Setembro de 2006.

Sunday, October 01, 2006

Confissão

Quisera eu jamais declinar
Mais uma manhã.
Romper seus aromas sensoriais
Aos suspiros sobressaltados,
Mover minhas mãos nostálgicas
Sob auroras emocionadas,
Dourar meus gestos pálidos,
Soltar-me
Dos vários laços despertos.

Sentir à tudo
Como se tudo me sentisse,
Aos avessos.
De tanto sentir
Ousar deslocar os meus gigantes.
Atravessar a longa trilha inversa
Longa,
Através da intensidade
De um único
Instante.

Partir as máscaras
Que me vestem .
Arriscar o perigo
De correr atrás dos ventos
Às quatro direções desfixadas,
Aos quatro turbilhões vorazes
Do meu eu.

Reverdecer os jardins da infância,
Sobre o vazio do mesmo círculo crescente.
Riscar no dorso da vida
Cortante
Meus sinais, minha chance, meu nome.
Respirar pelos seus poros meus ares.

Conversar outros tempos,
Ver brilhar as sete divindades,
Cores do sol.
Ser mágoa quando mágoa,
Divisar mares furiosos
Da minha tristeza envolvente.
Ser riso como se a alegria me fosse
Toda a essência e dança.
Ser poesia,
Fazer da cadência minha nova voz,
Morrer todos os meus Deuses.

Há tantas constelações à dizer e avançar,
Há tantas sinfonias em fulgores à meditar
Há tantos desígnios solares à romper e aspirar,
Há tantas esferas-passados à partir e recordar .

Quero ousar as profusões dos sentidos
Em visões memoráveis.
Lançando sem ver minhas pérolas,
Errante.
Florescer sem vaidades
Minhas sementes,
Sobre pedras, entre sombras, e espinhos.
À espera do primaveril desabrochar sutil
Da interna flor do infinito.


Ouvindo: Radiohead - I Might Be Wrong (acoustic version)

Sunday, August 06, 2006

Pedaços

O homem que comove mariposas
não consegue manipular canivetes.



Vivendo em uma Glasshouse, escrevendo em vidraças e paredes, poemas cicatrizes, músicas ouvidas nos sonhos, sinfonias de frases insones que escapam ao simples contato do papel, e a breviedade da tinta que a caneta guarda.
Meus pais sempre quiseram alguém que pudesse manter a racionalidade das coisas em seu devido lugar, que não se deixasse levar em considerações por momentos encantatórios, toques pornográficos, ou apenas um simples vagar de abismos internos.
Não pude ser como eles quiseram. Não pude ser como os amigos quiseram, não quis ser o que pensava querer.
Apenas sou. Perdi todos.

Vivendo em uma Glasshouse. Um dia eu a encontrei, seu nome : Infância. Foram horas mágicas, horas nuas de toda a placidez necessária, e solares merecidos. Olhei-a nos olhos, talvez superficiais demais para que eu fitasse tão dentro, porém eu vi mundos partidos, órbitas escurecidas de traumas complexos, dias perdidos em memórias fugazes, e não quis mais, nunca mais, nunca mais, nunca mais...
Mutilei-a , rasguei esse corpo de falsa luz com toda a voracidade que continha, o ódio tomou asas, cortou-me as pétalas da paciência e juventude excitada, noites e noites febris , delirando outros, viajando universos rompidos, como se fossem ventrem violados, mesmo com uma vida em ascensão lá dentro.

Vivendo em uma Glasshouse, eu quis voltar.